terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O Amazonês

Espia maninho
Eu sou dessas paragens
Das 'banda' de cima
Do lado de cá
Eu não sou leso
Nem tico bodó
Mas boto no toco
Se tu me 'triscá' (marrapá)
Eu não vim no guaramiranga
Sou moleque doido não venha 'frescá'
Pegue logo o beco e saia vazando
Senão numa tapa tu vai 'emborcá'

Me criei na beira ali pelo 'ródo'
Eu me embiocava lá pelos 'motô'
Mamãe me ralhava e eu nas 'carrera', zimpado
Era galho de cuia, lambada e o escambal
Saía vazado pro bodozal, menino vai se 'assiá'
Tira a tuíra do 'côro', que agora é dos vera
Vou te malinar.

Sou amazônes, não nado com boto, nem chupo 'piqui'
Sou do mesmo saco da farinha
Aquela da ovinha ali do uarini
Sou amazônes, num é 'fuleragi'
Eu sou bem dali e dou de 'cum força' na farinha
E sou 'inxirido até o tucupi.

Eu era escarrado e cuspido uma osga
Mas meu apelido era carapanã
Muito apresentado, passando na casca do alho
Era chato no balde, um cuirão pitiú
Mais 'intojado' que 'dismintidura'
Numa gabolice pai d'égua que só, pois num é?!
Man eu era chibata, parente, de rocha
Era o rei do 'migué'

Na ilharga das balsas
Brincava de pira
E ali de 'bubuia', ficava até 'ingilhá'
Mangava 'dusôtro' na esculhambação
E na hora da broca mandava dindin com kikão
Era bom 'qui só'
Eu pegava um boi, que era massa demais
Égua 'su mano', eu cresci à pulso
E hoje vivo dos bicos na rampa dos cais


Nicolas Júnior

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pitangueiro



Lembro-me do cheiro. Ocheiro é algo profundamente remetedor e íntimo; ativa a lembrança de um jeito sutil. E na minha memória parca, quase tudo que marcou a infância tinha um cheiro específico. Esses cheiros têm quase gosto quando os sinto hoje. É inevitável fechar os olhos e, fechando os olhos, a gente enxerga a imagem...a textura, a forma, o peso...tão perto que eu toco.

O pé de pitanga. É a coisa que mais tenho viva da minha infância, na cabeça! Lembro bem que ele ficava do lado da horta, que logo se foi pela falta de cuidados e em frente ao galinheiro que logo se foi pelos cachorros. Era frondoso, com aquelas suas flores brancas delicadas, e os frutos, ah os frutos! Tão vermelhos e doces (sempre achei que se pareciam com mini-abóboras).
Mas o que eu mais gostava naquele pé, era o pé. No pé, sentávamos eu e minha prima e fazíamos luxuosos bolinhos de lama que nos dava água na boca. Na verdade, o que eu mais gostava mesmo era de ter um pé de pitanga! Como eu era ogulhosa daquilo! Todos os meus amigos tinham pés de acerola, goiaba, manga - coisas que também tínhamos, aliás. Mas ninguém tinha um pé de pitanga. Era diferente...

Não me lembro quando aquele pé deixou de existir para dar lugar ao quarto do meu irmão. Também não lembro se fiquei triste ou não, na época. Mas hoje, cada vez que eu vejo um pé de pitanga, eu acabo repetindo com o mesmo entusiasmo e dizendo sempre a mesma coisa pra quem estiver mais perto: "eu tinha um pé de pitanga!!!"

Minha maior felicidade esses dias, foi me deparar com um pé que tinha uma pitanga, tão somente. Ela era minha. Estava amarga, mas eu fiquei emocionadissima comendo aquele negócio. Aí eu fechei os olhos, lembrei do meu pé, da textura, da forma, do cheiro...
Minha infância tinha cheiro de pitanga.

domingo, 14 de novembro de 2010

"ô, Jah Jah, me leve..."

Viajar é preciso! Por sorte (e providência) encontrei um parceiro no amor que é parceiro dessa idéia (e de tantas outras). Nosso último encatado destino foi o Sana. Fico triste quando vejo lugares raros sendo descobertos por tanta gente...fica meio banal. Mas, essa idéia sempre adormece quando chego lá, porque continua raro. Me sinto privilegiada por ter acesso de um jeito não tão simples, mas rápido, a essa natureza bela. Sempre agradeço a Deus pela dádiva.


O final de semana era comum - mas de uma especialidade a nós desconhecida pelos outros - por isso, o lugar estava vazio, com uma tranquilidade que só o Sana possui. Acampamos à beira-rio e, meu Deus, que êxtase é dormir e acordar com o barulho da água corrente. Melhor ainda acordar com um carinho e um sorriso de sono ali do lado...

Destaco para a noite de caminhada sinistra no escuro até o sítio do Dom Luiz , o baralho interminável à luz da lanterna e o banheiro cheio de sapos. A cachoeira era nossa, o miojo era nosso. A cachorra não era nossa, mas se chamava Frô.
Tudo possuía um tom mágico, como deveria ser. Meu namorado me diverte e faz bem. Ele fez a diferença naquela viagem e faz a diferença em tudo!

Agora a gente volta lá qualquer hora, mas segue planejando outros rumos...ainda temos muito tempo, afinal, é daqui até a eternidade!


(em 29/09/10 - depois disso, já voltamos...rs)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

tô com pregui

aí eu comecei a editar o design da página e não terminei.
por enquanto fica assim.
qualquer hora eu tomo mais cuidado com isso aqui..ainda não dá.

=)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O choro

, uma merda.
O olho arde, o nariz não pára de escorrer, as vias aéreas ficam entupidas e cara fica pior que o meu omelete mal-sucedido.
É claro que o choro é consequencia do sentimento: bom ou ruim, ele é o estopim do coração. Vontade de chorar é uma bacia cheia carregada por um bêbado.
Me intriga, porém, o porquê do olho. Venham lá as explicações científicas, mas sou uma pessoa - como diz a minha velha e boa antropologia - antes qualitativa que quantitativa. Careço de subjetividade e de inexatidez. De uma explicação que não procede e vem de lugar algum.
O olho, enfim.
Talvez porque veja.
Ver é um privilégio tão grande para umas simples bolinhas gelatinosas, que merece suas consequências. Parece-me que cada parte do corpo recebeu seu dom e sua maldição. Como fosse o cérebro um grande feiticeiro e determinasse as ordens: " unhas! Serão pintadas, porém encravadas; seios! Darão leite, mas cairão; olhos! Verão todas as coisas que puderem, mas de vocês jorrará água! Vai arder! O nariz também vai sofrer! E a culpa é do coração!"

A história é pra eu distrair do choro (afinal, os cegos também choram...). Mas o corpo sabe, desde sempre, porquê chora.
O neném chora querendo peito. A gente chora querendo leito.
Depois, a gente dorme de cansaço...saciados ou em cacos.


Penso? Ok.
Existo? Tenho dúvidas.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

thousand ways of talking



Mãe: "Tá tudo alagado. Estamos saindo de casa."
Eu: "..."
Eu: "E os livros?"

E foi por aí que se desenrolou nossa conversa; eu lá, eles cá. Sei que tô meio atrasada na notícia pros daqui - apesar de tantos já saberem-, mas como ando atrasada em tantas outras, vá lá. Eu conto porque não dói. É triste, estranho...mas não dolorido. Porque a minha família é fora de série, sempre me surpreendo com suas capacidades de serem tranquilos e encarar tudo com a calma de quem olha o pôr-do-sol. Minha tensão vai pras cucuias e eu me rendo ao sorriso em meio ao caos. Eu sei, eu sei...sei que é o Senhor. Conto e repito, porque as coisas mudaram. E mudanças são mudanças, preciso redundar a significância [eu escrevo aqui, ou ali, pra não esquecer. Porque eu esqueço, mesmo. Esquecer não é legal, as pessoas te cobram. E nem todo mundo tem a paciência que o meu digníssimo tem de lembrar o que esqueci no segundo passado, repetidamente (thanks, sweet, te amo)]. Mudar de ótica é necessário pra reinventar a vida, a ferida, a lida, a saída...

Domingo é aniversário da Thaís, minha hommie. Dei-me conta de que quase nuca falo dela, e ela sempre merece. Tenho disso do descuido. Que feio. Mas ela sabe. Sabe que eu adoro o jeitinho dela de acordar e dar bom dia. Do seu talento culinário pra preparar o miojo e a lasanha mal cozida. Do retardo mental partilhado, risadas, conselhos e o gingado. Ela é linda e cuida. Me incentivou à depilação e ao romance. Me viciou em chocolate e, inexplicávelmente, tornou-me três vezes mais desastrada. Acho super divertido a despreocupação dela de andar em casa sem roupa, com a porta da área aberta (não sei se podia, contei). Beijo na ponta do nariz de batata da mister mula. Bonita, elegante e estúpida. Parceira do meu casamento branco. Amo.

Obrigada às pessoas que lêem o blog, mas que não seguem nem comentam e vem me contar. Obrigada por gostarem e me dizer e por não gostarem e me dizer.
Eu vou escrevendo quando dá e quando não. Fiquem sempre, por favor.

Vou fazer uma tatuagem, logo.

Carinho, sorriso e olhem o pôr-do-sol.


Wal.